domingo, 7 de junho de 2020

O CORONAVÍRUS E O MEIO AMBIENTE

Artigo publicado nos jornais Folha de Votorantim e Gazeta de Votorantim em 30/05/2020


Elzo Savella

Vivemos tempos de degradação do nosso planeta: exploração insustentável dos recursos naturais, destruição de ecossistemas e habitats, emissão de gases de efeito estufa, consumo desenfreado e concentração das riquezas; e isso gera: desiquilíbrio ecológico, poluição, mudanças climáticas, pobreza e doenças. Epidemias e pandemias são resultados dessa degradação ambiental.

É unanimidade entre os pesquisadores que existe uma relação direta entre degradação da natureza e doenças infecciosas, e que a ação destrutiva humana contra o meio ambiente gerou a pandemia da covid-19 que vivemos hoje, causada pelo novo coronavírus. Calcula-se que 61% dos organismos causadores de doenças são transmitidos a partir de animais, ou seja, são originadas de zoonoses que, com as intervenções e desiquilíbrio, são transferidas de animais silvestres para animais domésticos e para a espécie humana.

O mecanismo é simples: vírus, bactérias e outros microrganismos existem na natureza tendo como hospedeiros os animais silvestres, com o desmatamento e a redução dos habitats, com a consequente redução de populações desses animais, somado ao contato humano, o ciclo natural se rompe e os agentes infecciosos escapam, transbordam, e, por força da seleção natural, podem passar por mutações e adaptações e encontram novo hospedeiro na espécie humana que ainda não tem defesas imunológicas contra esses agentes, causando epidemias e pandemias.

Na história da humanidade podemos encontrar registros de muitas epidemias e pandemias. A mais famosa delas, a peste bubônica ou peste negra, ocorrida no século XIV, teve como agente infeccioso uma bactéria transmitida pela pulga que se hospedava em ratos, e se proliferou devido às péssimas condições de saneamento ambiental reinantes nas cidades medievais. Calcula-se que matou 200 milhões de pessoas. A cólera, que já matou, e ainda mata, milhões de pessoas, é doença de veiculação hídrica provocada por bactéria, e é causada também pela falta de saneamento. Mais recentemente podemos citar a gripe espanhola (1918/1920), causada pelo vírus influenza, com origem em aves e porcos; a AIDS, com provável origem em chimpanzés; a febre amarela, com origem em macacos; a gripe aviária (2003/2005), transmitida por aves; a gripe suína (2009), causada pelo H1N1 e transmitida por porcos criados em condições precárias de confinamento; o ebola, transmitido por morcegos e macacos; a SARS e a MERS, também causadas por coronavírus e transmitidas por morcegos, gatos e camelos. A atual pandemia, a covid-19, causada pelo novo coronavírus, provavelmente tem como vetores morcegos e pangolins, animais silvestres comercializados no mercado de animais de Wuhan, na China, e consumidos como alimentos por humanos.

Os animais devem ser vistos então como inimigos? Não, não são inimigos. São nossos aliados. Devemos entender a importância deles dentro dos ecossistemas para o equilíbrio ambiental. O fato de os agentes infecciosos estarem nesses animais, num ciclo natural, é o que nos dá a segurança de que não virão para nós. O vírus só vai passar quando interferirmos diretamente sobre esses animais e em seu ambiente. Um bom exemplo é o caso da febre amarela: a morte de macacos é indicador de um surto, da presença da doença naquele ambiente, que teve uma quebra do ciclo normal do vírus. No caso dos morcegos, quando tem uma interferência em sua população, com redução ou aumento, o vírus pode “pular” para outra espécie. O melhor é não interferir na natureza, deixar o sistema acontecer como ele sempre aconteceu. Então, não devemos manter contato direto com animais silvestres e muito menos usá-los na alimentação ou mantê-los em cativeiro; e, quanto aos animais domésticos, mantê-los sempre em boas condições sanitárias.

O futuro, porém, não é muito animador. Com o aquecimento global, os solos congelados próximos ao Ártico, o permafrost, estão descongelando. Esse processo está liberando, além de muito gás metano, muitos vírus, bactérias e outros microrganismos desconhecidos que estão ali adormecidos por milhares de anos. A nossa Amazônia, em constante processo de devastação, também é um repositório de organismos ainda desconhecidos que poderão ser liberados para infectar a espécie humana e animais domésticos, e não podemos saber como vai ser o ciclo desses microrganismos.

Podemos concluir que, continuando a atual escalada de destruição de ecossistemas e habitats, somado ao aquecimento global, as ocorrências de epidemias e pandemias se tornarão cada vez mais comuns. Devemos, então, aprender com as lições que a atual pandemia pode nos deixar: precisamos repensar nossos padrões de consumo, nossa relação com a natureza, nossa vida em sociedade; que precisamos de um mundo mais solidário, humano e justo, com equilíbrio ambiental, justiça social e um novo modelo econômico viável, ou seja, o caminho para a sustentabilidade. Se não evoluirmos para uma nova sociedade, menos egoísta e mais sustentável, não teremos futuro por aqui.

Elzo Savella é professor, historiador, ambientalista, gestor ambiental, mestre em ciências ambientais. savellax@gmail.com

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